top of page

[REVIEW] Consume Me: A adolescência nunca foi simples

Atualizado: 3 de fev.


Na adolescência, tudo parece maior do que realmente é. Cada olhar, cada comentário, cada detalhe do corpo vira motivo para preocupação. A gente ri para disfarçar, finge segurança que não sente e carrega incômodos que não sabe nomear. Consume Me vem exatamente desse lugar, onde o humor tenta aliviar uma dor que muitos conheceram cedo demais. Talvez por isso ele impacte tanto. Porque muita gente já sentiu exatamente aquilo.


Arte promocional do jogo Consume Me em estilo cartoon.

Como descrever Consume Me?


Os devs, Jenny Jiao Hsia, AP Thomson, Jie En Lee, descrevem Consume Me como um jogo semi-autobiográfico que retrata dietas, transtornos alimentares e gordofobia. O jogo abre com um aviso feito por eles de que se você já enfrentou algo disso, a experiência pode ser estressante ou até perturbadora, e está tudo bem simplesmente não jogar. Esse cuidado inicial já prepara o terreno para um jogo que mistura humor, desconforto e uma sinceridade rara.


Ainda não terminei Consume Me, devo ter em torno de 4 horas, mas já entendi uma coisa que é um daqueles jogos que fazem você rir e logo depois perceber que essa risada veio de um lugar estranho, meio desconfortável. Talvez seja por isso que eu precise escrever sobre ele agora, enquanto continuo digerindo tudo isso e fico triste em ver algo tão bom passar despercebido pelos jogadores, embora ele esteja concorrendo a jogo de impacto no TGA desse ano.


Mas, como disse o saudoso Marko Barbosa em Spiritfarer: Um Epitáfio sobre o Adeus, nada melhor do que um jogo indie para tocar em temas delicados sem perder a sensibilidade. E, como falar sobre corpo, cobrança e insegurança ainda é um tabu para muita gente, Consume Me surge como uma forma inesperadamente confortável de encarar tudo isso do jeitinho que muitos de nós sabem lidar melhor: jogando videogame.


Enredo e Gameplay


Consume Me acompanha Jenny, uma adolescente tentando emagrecer enquanto lida com escola, tarefas domésticas, amizades que estão começando a surgir e uma mãe que nunca parece satisfeita. O que realmente me pegou é como o jogo transforma cada pedacinho da vida dela em minijogos rápidos e caóticos. Você dobra roupas no timing perfeito, tenta manter a compostura em um encontro que claramente não vai dar certo, passa maquiagem como se estivesse colorindo um desenho infantil e organiza a comida no prato com um cuidado quase cirúrgico. Tudo isso sempre com um toque de humor meio absurdo, como se o jogo dissesse “eu sei que isso é ridículo, mas ainda assim dói”.


Arte promocional do jogo Consume Me em estilo cartoon.

A parte que mais me marcou até agora é o espelho. É dali que vêm as missões da Jenny, por meio de um reflexo que fala com uma sinceridade cruel. Eu nunca tive um transtorno alimentar, mas conheço intimamente o momento de olhar para o espelho e pensar “não é isso que eu gostaria de ser”. Essa sensação, tão pequena e tão pesada ao mesmo tempo, é a base de Consume Me. O jogo brinca com isso, exagera, transforma em piada, mas não foge do impacto. Ele não deixa você esquecer que, por trás do humor, existe um incômodo real.


Arte promocional do jogo Consume Me em estilo cartoon.

O mais curioso é como o jogo captura essa vontade de melhorar, de se ajustar, de ser “a versão certa de você”. Jenny tenta, tenta muito, e às vezes parece que nada muda. Não importa se você segue as regras, se faz tudo “do jeito certo”, se tenta agradar todo mundo, algumas coisas simplesmente não melhoram só porque você se esforçou. Não é um jogo sobre vencer. É um jogo sobre viver com o que existe, mesmo quando é difícil.


Visualmente, tudo é colorido, exagerado, quase infantil. As deformações cartunescas, os botões enormes, as cores vibrantes, o cachorro irresistivelmente fofo. E é justamente essa estética fofa que torna tudo mais doloroso. Parece que o jogo quer te lembrar o tempo todo que, por trás do charme, existe uma adolescente tentando desesperadamente caber em um espaço que nunca foi feito para ela.


Arte promocional do jogo Consume Me em estilo cartoon.

E ainda assim Consume Me é leve. Rápido. Direto. Nunca prende você em cenas longas demais, mesmo quando está abordando coisas que poderiam facilmente virar drama pesado. Ele te dá uma informação, uma piada, um momento de dor e já te empurra para o próximo passo.


Conclusão


Pelo que andei lendo, o jogo conta com diversos finais. Mas já sinto que a jornada vale por algo que vai além do jogo. Consume Me me fez pensar em todas as vezes em que tentei “consertar” partes de mim como se fossem defeitos de fábrica e até perdi muito tempo nisso, até que consegui ver que tudo que tentei não iria definir quem eu seria.


Então se Consume Me serve para alguma coisa além de divertir, é para lembrar que não existe esse momento mágico em que você finalmente se torna alguém digno. Existe só você. Tentando. Sentindo. Rindo do que dá para rir. Vivendo.


E isso já é suficiente.


1 comentário


Juliana Bolzan
Juliana Bolzan
12 de dez. de 2025

Eu comprei o jogo justamente por estar na categoria de impacto do TGA, mas ainda não joguei. Agora fiquei com mais vontade ainda! Belíssimo texto!

Curtir
bottom of page