[REVIEW] Vale a pena logar para AVIÃOZINHO DO TRÁFICO PRÉ 4: SOBRARAM DEMÔNIOS DO PORTAL PRO INFERNO NA FAVELA QUE ABRI E AGORA TENHO QUE SALVAR OS MAMADAS DO RONALDO?
Por Guilherme Santos
O VLH agradece a Joeveno pelo envio da chave via JF Games Press

Meu primeiro contato com a “franquia”, se é que podemos chamar assim, de Aviãozinho do Tráfico já vem de algum tempo.
Sempre fui entusiasta dos jogos de tiro mais retrô. Os Dooms, Wolfensteins e Quakes da vida são jogos aos quais eventualmente acabo voltando, e todos eles sempre tiveram cenas de mods gigantescas, nas quais volta e meia eu acabava me aventurando.
Em meados de 2016 a 2018, aconteceu uma espécie de renascimento desse estilo de FPS. De um lado, grandes publishers trouxeram jogos como DOOM de volta aos holofotes; do outro, a cena independente começou a entregar títulos como DUSK e tantos outros que recuperavam aquela filosofia de velocidade, exploração e combate direto dos shooters dos anos 90.
Muita coisa boa, e muita coisa nem tão boa assim, saiu daí.
Até que, em 2024, chegou até mim a notícia de um FPS retrô brasileiro que estava começando a viralizar: Aviãozinho do Tráfico 3. E o negócio simplesmente explodiu.
O que começou como uma total conversion compartilhada nos fóruns do Doomworld acabou virando um jogo comercial, conseguindo publisher, chegando à Steam e levando seu próprio criador à QuakeCon para conhecer alguns dos responsáveis pelos jogos que inspiraram sua criação. A trajetória de Aviãozinho do Tráfico é, sinceramente, digna de filme. E também de uma quantidade considerável de inveja da minha parte.
O primeiro Aviãozinho era bastante simples em seu design. Em muitos momentos, era evidentemente Quake com um gostinho brasileiro por cima. Inimigos e elementos conhecidos ganhavam versões completamente amalucadas, armas se transformavam em coisas como a Metralhadora Dolly, e as fases passavam por cidades e lugares reconhecíveis do Brasil.
Era o tipo de jogo que, em uma realidade paralela, poderia perfeitamente estar sendo vendido naquela mesma banquinha que oferecia GTA Homem-Aranha, GTA Sonic e Bomba Patch para PS2. E ninguém reclamaria.
Só que aí aparece uma pergunta relativamente óbvia: tudo isso é engraçado na primeira vez. Mas uma piada consegue sustentar uma sequência inteira? Será que depois de Dolly, Flamengo, Tim Maia e favela ainda existe espaço para surpreender?
Aparentemente, sim. E a solução encontrada foi simplesmente aumentar ainda mais o absurdo.
O portal fechou. Os demônios ficaram.
Se o título ainda não tornou isso suficientemente claro, Aviãozinho do Tráfico Pré 4: Sobraram Demônios do Portal pro Inferno na Favela que Abri e Agora Tenho que Salvar os Mamadas do Ronaldo é a continuação de Aviãozinho do Tráfico 3: Abri um Portal pro Inferno na Favela Tentando Reviver Mit Aia e Preciso Fechar.
Sim, esse é o título. E sim, eu vou precisar chamar o jogo apenas de Aviãozinho Pré 4 daqui para frente pelo bem da minha própria sanidade.
Para o mercado internacional, os nomes foram adaptados para Brazilian Drug Dealer, enquanto algumas das referências mais óbvias também receberam aquela bela transformação jurídica preventiva. Tim Maia, por exemplo, se tornou Mit Aia.
A história tem aproximadamente a mesma importância que possuía nos FPS dos anos 90 que inspiram o jogo. Existe um problema. Existem demônios. Existem armas. Mate tudo que estiver entre você e a saída da fase. É praticamente isso.
Depois dos eventos do primeiro jogo, ainda sobraram demônios pelo Brasil e, naturalmente, cabe novamente ao protagonista resolver o problema.
A campanha possui 18 mapas, dentro de um pacote de 32 mapas no total, contando os modos adicionais: 18 de campanha — incluindo um nível de skate —, 7 mapas de Horda e 6 mapas de DM. A viagem passa por diferentes partes do Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Inferno e até Paraíso, além de áreas secretas espalhadas pelo caminho.
Mas dizer simplesmente que o jogo “passa por cidades brasileiras” não explica direito o que acontece aqui. Estamos falando de lugares com nomes como Cristorendendor, Santos du Monza, Praça da Sé e Guarulhos, dentro de um universo que parece ter sido criado depois de alguém ficar acordado durante três dias consumindo exclusivamente memes brasileiros.
Há ainda inimigos como o Vasq Demon, referências ao Chapolin Colorado e, em algum momento, uma missão que basicamente manda você: “Gotta kill all the xaropitos.” Nesse ponto, você aceita.

Quake, mas agora o chão é opcional
A grande mudança de Aviãozinho Pré 4 não está nas piadas. Está na movimentação.
Ao arsenal de habilidades do jogador foram adicionados pulo duplo e dash, duas mudanças que parecem pequenas olhando uma lista de recursos, mas que transformam completamente a maneira como as fases são construídas.
O primeiro Aviãozinho ainda carregava muitas das limitações naturais de seu DNA de Quake. Os ambientes funcionavam, os combates funcionavam e a velocidade estava lá, mas boa parte da estrutura ainda era relativamente horizontal e simples. Aqui, Joeveno parece muito mais confortável em brincar com o espaço.
Há plataformas, mudanças constantes de altura, áreas maiores e muito mais verticalidade. O jogador consegue atravessar arenas rapidamente, subir por estruturas e escapar de ataques utilizando o dash, enquanto o pulo duplo abre possibilidades que simplesmente não existiam anteriormente.
E talvez a maior prova dessa evolução seja uma coisa extremamente importante: eu me perdi muito menos.
Pode parecer elogio pequeno, mas não é. FPS retrô adora esconder uma chave azul do outro lado do planeta enquanto o jogador passa quinze minutos tentando descobrir qual corredor cinza ele ainda não visitou. Pré 4 parece muito mais consciente de como conduzir o jogador sem necessariamente transformar seus mapas em corredores.
O resultado é um ritmo consideravelmente melhor. Você está sempre andando, pulando, dando dash, procurando segredos e, principalmente, atirando em alguma aberração que provavelmente deveria ter ficado restrita a um grupo de WhatsApp em 2012.
Quando o jogo resolve gastar todo o orçamento numa piada
Existe também uma diferença enorme de escala entre este e o jogo anterior. O sucesso do primeiro parece ter dado ao projeto não apenas mais recursos, mas principalmente mais confiança.
A impressão é que, desta vez, qualquer pessoa que perguntou “será que isso é idiota demais?” imediatamente recebeu como resposta: “coloca no jogo.”
Em um momento você está avançando por uma fase relativamente tradicional. Em outro, está andando de skate com Chorão. Depois aparece uma perseguição em cima de um trio elétrico enquanto acontece um tiroteio com um helicóptero. Em algum momento dois caras numa moto aparecem para te atacar.
E quando você acha que já entendeu qual é o limite do jogo, ele encontra uma maneira de diminuir esse limite mais um pouco.
É aqui que Aviãozinho deixa de parecer simplesmente um mod engraçado de Quake e começa a construir uma identidade muito mais própria. A referência brasileira não está apenas nas texturas. Ela está na estrutura das fases, nos inimigos, nas armas, na música, nos nomes dos lugares e até na maneira como o jogo entende humor.

Metralhadora Dolly nunca foi o bastante
Algumas armas clássicas retornam. A Metralhadora Dolly continua aqui, assim como outras ideias que já faziam parte da identidade do primeiro jogo.
Só que novamente existe a sensação de que alguém abriu um documento escrito “ideias que jamais deveríamos colocar em um videogame” e começou a implementar tudo. Agora temos coisas como lança-chamas de chimarrão, agulha de feijoada e Lolorenzetti, além de várias outras invenções que fazem tanto sentido quanto você imagina.
O mais interessante é que por baixo da piada existe um arsenal legítimo de FPS retrô. Cada arma ocupa seu espaço dentro dos combates e, conforme o número de inimigos aumenta, trocar rapidamente entre elas e utilizar a movimentação se torna essencial.
É uma característica que resume muito bem o jogo inteiro: a piada poderia existir sozinha, mas existe um jogo funcionando embaixo dela. E provavelmente é por isso que continua engraçado.
Às vezes é apenas seu amigo tentando te trollar
Existe um achievement chamado “SALVOU MEU PAI”. E outro envolvendo Romário e um armário que provavelmente dispensa maiores explicações.
Existe o Caldeirão do Huck. Existe Chapolin. Existem xaropitos. Existe uma quantidade de referências culturais brasileiras tão absurda que tentar enumerá-las provavelmente deixaria esta review maior que a campanha.
Só que talvez o humor funcione justamente porque ele não tenta ser elegante. Aviãozinho tem a energia daquele amigo que poderia contar uma piada elaborada, construir uma preparação excelente e entregar um punchline perfeito... mas prefere esperar você abrir uma porta para fazer um barulho idiota atrás dela.
Essa falta absoluta de vergonha é uma parte fundamental da identidade do jogo. Há jogos que utilizam humor tentando conquistar o jogador. Aviãozinho parece estar constantemente testando até onde consegue empurrá-lo antes que ele diga: “Tá bom, cara. Chega.” E então aparece alguma coisa ainda mais idiota.

Tá tomando. Tá sempre tomando.
A trilha sonora talvez tenha sido uma das coisas que mais me surpreenderam nesta sequência. Seria extremamente fácil simplesmente colocar alguma música eletrônica genérica embaixo das fases e deixar os memes carregarem o resto. Não é o que acontece.
Boa parte das músicas abraça exatamente o mesmo espírito do restante do projeto. Há funks com vocais do próprio criador, faixas absurdas e versões eletrônicas de referências completamente inesperadas — incluindo algo que minha memória insiste em descrever como uma versão eletrônica de Escravos de Jó.
Em outros momentos entram coisas do nível de “Tá tomando, tá sempre tomando”, “toma um gelo, dá um teto” e outras frases que eu jamais esperava estar escrevendo numa análise de videogame.
O resultado combina perfeitamente com a estética. Visualmente, o jogo continua carregando aquela sujeira característica da tecnologia da era Quake: modelos simples, texturas estouradas, ambientes angulares e cores que às vezes parecem estar brigando entre si.
Só que isso não parece uma limitação que o projeto tenta esconder. É parte do charme. Pré 4 entende muito bem a estética de “mod encontrado num CD em 2004” que está tentando reproduzir e abraça isso completamente.

Nem tudo precisa funcionar. Mas talvez devesse.
Aviãozinho do Tráfico não é uma experiência que tenta ser agradável o tempo todo. O jogo é uma cacofonia proposital de sons, cores, memes, referências, gritos e acontecimentos completamente desconexos que podem deixar até o mais experiente apreciador de YouTube Poop dos anos 2000 meio desnorteado.
Mas não considero isso necessariamente um defeito. É uma característica. O problema aparece quando essa característica começa a disputar atenção com o próprio jogo.
Quando tudo é uma piada, algumas piadas inevitavelmente passam batidas. Quando tudo está gritando, eventualmente você deixa de perceber quem está gritando mais alto.
E existe também uma questão inevitável de gosto. Se o tipo de humor de Aviãozinho não funcionar para você nos primeiros vinte minutos, absolutamente nada no restante da campanha vai fazer você mudar de ideia. Muito pelo contrário: o jogo vai dobrar a aposta. Depois triplicar. E provavelmente colocar um flamenguista em cima dela.
Ainda assim, considero importante separar isso de uma crítica ao game design. Porque Pré 4 é consideravelmente melhor construído do que seu antecessor. A movimentação é mais interessante, os mapas são mais variados, há mais situações únicas, a escala aumentou e o jogo parece muito mais confortável com aquilo que quer ser.
Vale a pena logar?
Todo mundo conhece aquele amigo no qual você consegue enxergar um potencial absurdo. Você olha para ele e pensa: “Se esse cara realmente utilizasse toda essa habilidade para alguma coisa séria, ele iria longe.”
Só que ele não quer. Ele prefere utilizar todo seu talento montando a pegadinha mais idiota possível.
Aviãozinho do Tráfico Pré 4 é esse amigo.
Existem flashes genuínos de brilhantismo em seu game design. A melhoria na movimentação é excelente. Os mapas são mais interessantes. O ritmo é melhor. Existem ideias aqui que mostram que Joeveno entende muito bem os FPS que está homenageando.
E então todo esse conhecimento é utilizado para colocar você em cima de um skate com Chorão antes de mandar derrubar um helicóptero em um trio elétrico. E quer saber? Ainda bem.
O mercado independente está cheio de jogos tentando reproduzir Doom, Quake e os shooters dos anos 90 com precisão. Alguns são excelentes. Mas poucos poderiam ser confundidos com algo que seu primo trouxe para sua casa num CD gravado escrito “1000 JOGOS PC 2005”.
Aviãozinho poderia tentar ser apenas mais um ótimo FPS retrô. Prefere ser outra coisa. Prefere ser brasileiro. Prefere ser idiota. Prefere me entregar uma Metralhadora Dolly e mandar: “Gotta kill all the xaropitos.”
E, sinceramente? Se for para jogar outro boomer shooter genérico, eu também prefiro continuar metralhando xaropitos com minha bazuca do Flamengo.
VALE A PENA LOGAR.



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