[REVIEW] Vale a pena logar para Mullet MadJack?
- Guilherme Fernandes
- 12 de jan.
- 4 min de leitura
Atualizado: 3 de fev.

Em anos recentes, a América Latina tem produzido jogos que carregam identidade, risco criativo e personalidade, elementos cada vez mais raros na indústria.
No Brasil, Dandara (2018), da Long Hat House, reinventa o gênero de plataforma ao romper com a gravidade tradicional, enquanto Horizon Chase (2015) resgata o espírito dos arcades de corrida dos anos 90 com elegância e forte apelo nostálgico.
Na Argentina, Forager (2019) nasceu como um projeto modesto e rapidamente se transformou em um sucesso mundial, provando a força de ideias simples bem executadas.
O Chile contribui com Tormented Souls (2021), um survival horror que presta homenagem aos clássicos do gênero sem perder personalidade própria. Já na Colômbia, Cris Tales (2021) chama atenção por sua arte desenhada à mão e pela mecânica criativa de manipulação do tempo, apostando em uma narrativa sensível e ambiciosa.
Mais recentemente, Despelote (2025), desenvolvido no Equador, surge como um exemplo poderoso de como jogos latino-americanos também podem ser intimistas, autorais e profundamente culturais. Inclusive tem um texto magistral escrito pela Juliana Bolzan no site.
Juntos, esses jogos deixam claro que a América Latina não está apenas acompanhando a indústria global de games, mas expandindo seus limites, oferecendo novas linguagens, temas e perspectivas que enriquecem o meio como um todo.
Mullet MadJack, com toda certeza, é mais um desses exemplos, que se destaca por unir jogabilidade frenética, estética marcante e um senso de identidade muito claro, mostrando que é possível dialogar com o mercado global sem renunciar a uma voz própria.
Introdução
Se você ainda não conhece, Mullet MadJack é um FPS indie desenvolvido no Brasil pelo estúdio Hammer95 e distribuído pela Epopeia Games, empresa sediada no Rio Grande do Sul, teve lançamento original em 2024 para PC e posteriormente para Xbox One e Xbox Series S/X.

Trata-se de um shooter cyberpunk, com estética inspirada em animes dos anos 80 e 90, que mistura ação frenética com elementos de rogue-lite. A premissa é simples e propositalmente absurda, nele você controla Jack Banhammer, um herói caricato encarregado de salvar uma princesa mantida refém por robôs bilionários em um futuro distópico.
O que este texto defende é bastante direto: Mullet MadJack é uma experiência de ação extremamente divertida, estilosa e confiante, que mostra o quanto a indústria brasileira de jogos está amadurecendo, mesmo que sua crítica social acabe ficando mais na superfície do que no aprofundamento.
Jogabilidade
A jogabilidade gira inteiramente em torno da urgência. Dependendo do modo de dificuldade que você escolhe, você começa cada fase com apenas dez segundos de vida, e esse tempo funciona como sua barra de saúde. Para sobreviver, é preciso matar inimigos, se movimentar sem parar e consumir refrigerantes que mantêm o fluxo constante de dopamina, mecânica que conversa diretamente com o tema do jogo.

Os controles são extremamente responsivos, e o jogo recompensa agressividade constante. É um run and gun puro, sem espaço para hesitação. Pensar demais aqui é morrer. O tiroteio é muito satisfatório, embora algumas armas se destaquem mais do que outras.
Mesmo sendo um rogue-lite, o jogo consegue funcionar muito bem para quem não é fã do gênero. Os upgrades permanentes entre capítulos ajudam a manter a progressão interessante, e os power-ups variam entre úteis e propositalmente inúteis, sempre com um bom senso de humor.
As lutas contra chefes são variadas e criativas, ainda que a decisão de reiniciar um capítulo inteiro ao morrer nelas possa frustrar. Ainda assim, tudo é coerente com a proposta de pressão constante.
Gráficos, Arte e Som

Visualmente, Mullet MadJack é um excesso calculado. O jogo emula com precisão a estética de animes das décadas de 80 e 90, com cores neon, filtros VHS, violência estilizada e uma interface propositalmente poluída. Nada aqui é acidental, o exagero é parte da linguagem.
A trilha sonora acompanha bem o ritmo frenético, empurrando o jogador para frente, mas pode se tornar repetitiva em sessões muito longas, especialmente para quem busca completar tudo o que o jogo oferece. Os efeitos sonoros são competentes e reforçam o impacto das armas.
A dublagem merece destaque especial. Claramente inspirada nos animes dos anos 90 como Samurai X e até referências diretas à dublagem clássica de Yu Yu Hakusho, o que adiciona muito carisma aos personagens e reforça o tom nostálgico, algo que conversa diretamente com o público brasileiro.
Narrativa e Personagens
A narrativa é simples e funcional. Serve mais como um fio condutor do que como algo realmente profundo. A crítica ao capitalismo e à busca incessante por dopamina é clara, mas acaba sendo genérica, caindo em uma leitura rasa do “bilionário maligno”. O jogo perde a chance de aprofundar temas mais interessantes, como a filosofia dos robôs com alma humana.

Ainda assim, os personagens funcionam muito bem. Jack Banhammer é brega, mas carismático, com falas motivacionais que acabam sendo estranhamente encantadoras. Sua operadora, apesar do arquétipo óbvio, apresenta nuances inesperadas. A streamer-princesa é simpática, e o vilão principal, mesmo com pouco tempo de tela, consegue ser memorável.
Vale a pena logar?

Mullet MadJack é um jogo incrivelmente divertido, frenético, e estiloso. Seus maiores acertos estão no ritmo implacável, na identidade visual marcante, na dublagem excelente e em um loop de jogabilidade viciante. Seus tropeços aparecem principalmente na narrativa e em algumas escolhas de design que podem frustrar jogadores menos pacientes.
Enquanto eu escrevia sobre Mullet MadJack, acabei lembrando do episódio Main Mission: Jogos Brasileiros do podcast do Vai Logar Hoje? O episódio fala sobre como jogos feitos no Brasil e na América Latina estão deixando de ser “exceção curiosa” pra virar presença constante, com identidade, personalidade e ambição. Jogos como o Mullet MadJack representam um momento importante para a indústria brasileira de games. Desenvolvido no Brasil e distribuído pela Epopeia Games, do Rio Grande do Sul, o jogo mostra que é possível criar experiências ousadas e autorais no cenário internacional, especialmente quando há espaço e visibilidade oferecidos por plataformas como o Game Pass.
Recomendo fortemente para fãs de FPS rápidos, ação intensa e estética exagerada. Quem prefere shooters mais lentos e cadenciados pode estranhar, eu mesmo prefiro esse estilo e ainda assim, adorei a experiência.
O jogo na data de publicação encontra-se disponível para compra no PC, Xbox One e Series S/X, assim como incluído no serviço de assinatura Xbox Game Pass.


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