[REVIEW] Vale a pena logar para MIXTAPE?
- Guilherme Fernandes
- há 3 dias
- 5 min de leitura

"Morra jovem e fique bonito", uma das milhares de frases que se encaixam no sentimento de viver a juventude. E quando digo juventude, digo como estado de espírito, um estado cheio de instabilidades, onde a vida parece correr a mil por hora e você pensa que as coisas não se encaixam. Nela há momentos que viram eternidade, amigos por quem você levaria um soco e, claro, diversas músicas que descrevem exatamente como você é e se sente.
A juventude tem essa crueldade bonita, ela vive sem perceber que seus instantes mais eternos já estão desaparecendo enquanto acontecem.
É aí que Mixtape parece encontrar sua força. Desenvolvido pela Beethoven & Dinosaur (The Artful Escape) e publicado pela Annapurna Interactive, o jogo parte justamente de uma situação complicada, onde três amigos, na última noite do ensino médio, estão vivendo uma última aventura juntos e atravessando lembranças embaladas por músicas de uma geração.
A própria descrição oficial fala em “uma mixtape de memórias”, o que já sugere que o jogo não trata a juventude como fase cronológica, mas como coleção de instantes formadores como sair escondido, andar por aí, se apaixonar, fazer besteira, fugir da polícia, estar com amigos sem saber exatamente que aquilo está acabando.
All the young dudes carry the news.
No centro da história está Stacey Rockford, uma protagonista movida por música, ambição e uma certa pose adolescente que mistura arrogância, vulnerabilidade e encanto. Ela está prestes a deixar sua cidade rumo a Nova York, enquanto tenta transformar a última noite com os amigos em algo digno de ser lembrado. Ao lado dela estão Van Slater e Cassandra Morino, formando um trio cuja dinâmica sustenta a alma do jogo.
Confesso que me identifiquei com a protagonista. Sempre fui alguém que encontra significado nas músicas. Adoro escolher canções, montar playlists e carregar comigo trilhas sonoras para cada fase da vida. Escuto música nos momentos bons e também nos terríveis, como se certas canções conseguissem traduzir sentimentos que às vezes nem eu saberia explicar.

Talvez por isso Mixtape tenha me tocado tão rápido, porque também sinto vontade de dar protagonismo às músicas que hoje carrego baixadas no telefone, como pequenas memórias prontas para serem revisitadas a qualquer instante.
Assim como na música All the Young Dudes do David Bowie, Mixtape entende a juventude como um momento de intensidade prestes a desaparecer.
A juventude é uma banda numa propaganda de refrigerantes.
A jogabilidade de Mixtape é simples, e muito mais interessada em criar sensação do que desafio. O jogo se organiza como uma sequência de memórias jogáveis, quase pequenos videoclipes interativos, em que cada música conduz uma lembrança, uma brincadeira, uma fuga ou um momento de intimidade entre os personagens. Há trechos de skate, minigames musicais, exploração leve, interações com objetos, fotografias, beijos desajeitados, festas, passeios e situações absurdas que parecem filtradas pela imaginação exagerada da adolescência.

Isso significa que quem procura sistemas profundos, dificuldade ou grande complexidade mecânica talvez se frustre. Mixtape não quer ser esse tipo de jogo. Ele não está preocupado em testar reflexos ou oferecer domínio técnico. Sua interatividade serve mais para aproximar o jogador da memória do que para criar obstáculos.
Seu tempo para conclusão é de aproximadamente 4 horas, um tempo relativamente curto, e talvez seja um defeito relevante para quem espera algo mais. Mas aqui, 4 horas talvez seja melhor do que 10 horas com enrolação, com partes desconexas e entediantes. Mixtape entende isso e portanto não tem grandes ambições quanto à sua duração.
And I don't have to please no one...
Mixtape foi lançado não faz nem uma semana direito, e acredite ou não, existe uma grande discursão entorno, muito causada por conta da aclamação que a obra vem recebendo da crítica especializada e da maioria dos jogadores.
Parte da discussão parece nascer menos do jogo em si e mais de um sistema de prestígio que a comunidade gamer frequentemente impõe às obras. Em vez de perguntar o que o jogo tenta comunicar, que sensação ele constrói ou como sua estética dialoga com memória, música e juventude, o debate rapidamente vira uma disputa sobre se ele “merece” ocupar certo lugar acima de outros jogos considerados mais complexos, difíceis ou importantes.

Isso revela uma limitação comum na forma como videogames ainda são avaliados, onde muitas vezes, valor é confundido com grandeza técnica, densidade mecânica ou ambição monumental. Obras mais afetivas, sensoriais ou atmosféricas precisam se justificar o tempo todo, como se emoção, nostalgia e leveza fossem sinais de superficialidade.
Oh, we're not gonna take it anymore...
Visualmente, Mixtape tem uma identidade fortíssima. O jogo aposta em cores quentes, expressões exageradas, enquadramentos de videoclipe e uma animação estilizada que aproxima seus personagens de uma lembrança mais emocional do que realista.

Esse estilo combina perfeitamente com a proposta. Mixtape não tenta reproduzir a juventude como ela foi, mas como ela é lembrada. Tudo parece um pouco maior, mais bonito, mais dramático e mais absurdo do que provavelmente seria na realidade. As ruas parecem cenários de uma lembrança idealizada; as festas parecem videoclipes; os gestos adolescentes ganham um peso mítico.

Há algo de muito interessante nessa escolha estética. A juventude em Mixtape não é capturada pela precisão do realismo, mas pela distorção afetiva. O mundo visual do jogo parece dizer que, quando lembramos do passado, não lembramos da textura exata das coisas, mas da intensidade que elas tinham. Uma rua comum vira palco. Um carro vira cápsula do tempo. Uma música tocando no momento certo vira revelação.
Don't you forget about me...
A trilha sonora é o coração de Mixtape. Não é apenas acompanhamento, nem decoração nostálgica. É estrutura, tema e linguagem. A Annapurna confirma músicas de artistas como DEVO, Roxy Music, Lush, The Smashing Pumpkins, Iggy Pop, Siouxsie and the Banshees e Joy Division, entre outros.

É aqui que o jogo mais se aproxima da ideia de uma mixtape como declaração de identidade. Escolher uma música nunca é um gesto neutro. Uma playlist diz algo sobre quem a monta, sobre quem ela quer atingir e sobre o momento que ela deseja eternizar.
Stacey entende isso.
Para ela, música não é fundo sonoro, é uma forma de organizar a vida. Cada faixa parece funcionar como uma chave emocional, abrindo uma lembrança específica e transformando pequenos acontecimentos em cenas inesquecíveis.
Vale a pena logar para Mixtape?
Resposta curta: Depende.
Mixtape é menos uma aventura tradicional e mais uma cápsula de memória. Sua jogabilidade simples pode não convencer quem busca profundidade mecânica, e sua aposta na nostalgia pode soar específica demais para alguns jogadores. Ainda assim, quando o jogo acerta, ele acerta em cheio. Há uma sinceridade rara na forma como ele trata amizade, música e juventude, especialmente por entender que crescer não é apenas seguir em frente, mas perceber que certas partes de nós ficam presas em noites, canções e pessoas que talvez nunca voltem.
Definitivamente é uma experiência única você estar imerso naqueles finitos momentos, e lembrar dos seus ao mesmo tempo, ou então perceber que está criando várias mixtapes, das quais levará para toda vida junto.
Não é um jogo para todo mundo, embora, na verdade, nenhum jogo seja, assim como nenhuma juventude é igual para todos. O problema é que muitas pessoas parecem incapazes de aceitar isso. Existe uma necessidade quase obsessiva de compreender, validar e consumir toda obra a partir da própria régua pessoal, como se algo só pudesse ter valor quando conversa diretamente com suas expectativas. Mas arte não funciona assim. Nem toda experiência precisa ser universal para ser legítima.
Mixtape já está disponível para Xbox Series X|S, Nintendo Switch 2, PlayStation 5 e PC. O jogo também pode ser aproveitado sem custos adicionais para assinantes do Game Pass Ultimate.




Muito boa análise, vou ter que arrumar um tempo pra jogar essa pedrada haha