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[REVIEW] Vale a pena logar para TENEBRIS SOMNIA?

há 4 dias
5 min de leitura

O VLH agradece a Saibot Studios e a New Blood Interactive pelo envio da chave via MKTR Agency


TENEBRIS SOMNIA

Tenebris Somnia capturou minha atenção desde o primeiro trailer. A premissa de um jogo de horror em pixel art recheado de cenas em live action é inusitada e interessante na mesma proporção.


O game, com lançamento previsto para 16 de outubro em todas as plataformas atuais, é um projeto de paixão encabeçado por Andrés Borghi, diretor de cinema e especialista em efeitos visuais, e por Tobías Rusjan, e foi desenvolvido na Argentina, pela Saibot Studios, em parceria com a New Blood Interactive.

 


Narrativa e contexto... dá medo mesmo?


Tenebris é uma grande e bem autêntica combinação de videogame com cinema e, por conta disso, boa parte de seu diferencial está concentrado na construção da atmosfera, na narrativa, nas possibilidades que o encontro dessas duas mídias pode proporcionar para quem está com o controle nas mãos.


Logo de cara somos apresentados aos dois protagonistas do jogo: Julia, nossa personagem jogável, interpretada de maneira fantástica pela atriz argentina Clara Kovasic,  e o prédio onde mora Ivan, seu antigo companheiro. Sim, não estou maluco, o prédio é de fato um dos elementos principais da aventura no aspecto narrativo.


TENEBRIS SOMNIA

Julia tem tido pesadelos terríveis com Ivan e precisa se certificar que está tudo bem com ele. Desde logo fica claro que a relação dos dois é conturbada, para dizer o mínimo, mas isso não impede Julia de procurar saber o que está acontecendo. Para a surpresa de zero pessoas, fica claro que algo muito estranho e perturbador está rolando com Ivan, com aquele apartamento.


Não vou entrar muito na história para não prejudicar a experiência de vocês, mas é importante dizer que, ainda que o contexto sobrenatural por trás da obra não seja tão bem construído ou muito interessante, a forma com que o jogo traça um paralelo entre o que está acontecendo, o que estamos vivenciando, e a relação entre Julia e Ivan é brilhante. Temas duros e pesados como relacionamento abusivo e depressão são conduzidos sem medo, transitando entre o espectro metafórico e o visceral.


As cenas de corte em live action são muito bem dirigidas, repletas de efeitos visuais excelentes e contribuem demais para a construção de um ambiente misterioso e aterrador. É incrível como elas conseguem se conectar ao design 2D do game. Ajuda o fato da transição entre a parte jogável e a parte filmada ser instantânea, sem loading algum. Depois de algumas horas realmente enxergamos a Julia “quadradinha” que controlamos e a que aparece nas cenas em vídeo como a mesma “pessoa”.


Uma coisa que preciso dizer é que o game não dá medo. A sensação, o sentimento que prevalece é de mistério, suspense, tensão e isso é suficiente para ligar o botão da curiosidade, do interesse, e empurrar a gente pra frente.


Acho que o texto poderia ser mais elaborado, mais instigante. Entendo que a escrita mais básica vem de uma decisão de design que compõe a dicotomia entre simples e complexo que o jogo faz no seu elemento visual, mas ainda assim, penso que havia espaço pra dar uma melhorada. Além disso, o game tem o hábito de explicar tudo o que acabamos de ver. Isso me incomoda. Parece que ele confia pouco na sua capacidade de contar a história e, menos ainda, na nossa de entender o que estamos vendo e jogando.


No todo, o jogo consegue entregar uma narrativa que prende a atenção e desperta a curiosidade do início ao fim da aventura. O terço final e a conclusão da história são ótimos e jogam a experiência pra cima.

 


Afinal... como se joga Tenebris Somnia?


Tenebris Somnia é um adventure ao estilo clássico, combinado com um jogo de sobrevivência. Ao longo da jornada, resolvemos diversos quebra cabeças de complexidade variada, que sempre exigem bastante atenção ao cenário. Combatemos “assombrações” com armas corpo a corpo e de fogo e lutamos contra alguns chefes. No geral, o loop de gameplay é simples e muito eficiente, com destaque para a sólida base de aventura do jogo.


TENEBRIS SOMNIA

O combate é travadão, típico de jogos de terror e sobrevivência, e pode ser bem difícil em diversos momentos. Não é um destaque, mas também não é um problema. Ele está lá e cumpre sua função como esperamos no gênero.


As lutas de chefe são muitas vezes complicadas, principalmente se, como eu, você é um gastador descontrolado de munição. É fundamental chegar nessas lutas bem armado, ainda que seja possível derrubar os malvados com o bom e velho cano de água ou uma chave inglesa. Algumas batalhas são bem inventivas e se utilizam de maneira criativa da perspectiva, de espelhos, brincam com lateralidade. Na média, são bacanas.


TENEBRIS SOMNIA

Os puzzles são o grande destaque da jogabilidade. Alguns são bem obtusos, outros mais claros, mas todos interessantes e geram aquela satisfação ao solucionar. Para exemplificar o tom imaginativo dos quebra-cabeças, em um determinado momento precisamos de um cabo RCA amarelo, mas somente encontramos um azul que, obviamente, não funciona. Ao invés de procurar por um outro fio, a solução passa por alterar a matriz de cores do jogo, de modo que o cabo azul passa a nos parecer amarelo. Bem legal!


Muito interessante o fato do jogo não ter mapa ou um registro de tarefas. Isso faz com que a gente precise memorizar as salas, os objetos que manuseamos e interagimos, as ações que estão pendentes. Só temos disponível o essencial: inventário e um livrinho.


TENEBRIS SOMNIA

 

E o audiovisual? Normalmente jogos de terror são bons nisso... 


Gosto bastante dos gráficos retrô de Tenebris. A composição artística me joga para outros tempos, grita nostalgia, mas o desempenho deixa claro que estamos em 2026. Joguei no Xbox Series X e o jogo está muito polido, rodando lisinho.


TENEBRIS SOMNIA

Não há como falar sobre a parte visual do jogo sem mencionar as cenas de corte, sem ressaltar a atenção aos detalhes com maquiagem, figurino, construção de cenários, iluminação, efeitos práticos e digitais. Tudo de um bom gosto, uma elegância...


TENEBRIS SOMNIA

Ainda que tomando caminhos bem distintos do ponto de vista estético, a cinematografia de Tenebris me remete demais a Sam Barlow e ao maravilhoso Immortality. A calma da filmagem, o tempo mais lento, sem pressa para entregar a narrativa aos jogadores, sempre com o enquadramento centrado na atuação, favorecendo a atuação. Lindo demais!


O design de personagens funciona muito bem, tanto em pixel art, quanto em live action. A sensação é de que, em boa parte, sua construção e desenho se iniciaram com o cinema e, a partir daí, transbordaram para o videogame. Sem entrar em detalhes pra não entregar a trama, vou dizer que fiquei encantado com o visual da personagem Vitra, interpretada nos vídeos pela atriz Maria Eugênia Rigon.


TENEBRIS SOMNIA

Já não dou o mesmo destaque para o áudio de Tenebris. Gosto muito do silêncio como base, como pilar para a inquietude, mas os efeitos sonoros estridentes são um tantinho irritantes. As músicas pontuam algumas partes da aventura. Não são ruins, na verdade são boas até, mas tem pouco impacto e somem da cabeça assim que terminam.

 


Vale a pena jogar Tenebris Somnia?


Ao final das minhas 12 horas com o jogo ficou claro que sobram qualidade em Tenebris Somnia para recomendá-lo. Especialmente se você curte aqueles adventures clássicos retrô da LucasArts, bem cabeçudos, ou valoriza demais, como eu, um terrorzinho sobrenatural que coloca o pezinho e faz paralelos com temas do mundo real, sem dúvidas, vale demais a pena jogar. O jogo é ótimo!


Termino essa análise, esse tempo com Tenebris Somnia realmente feliz. Não só por ter jogado mais um jogo muito bom, cheio de ideias criativas, super polido, interessante, carismático, mas por ter a oportunidade de acompanhar o cenário latino de desenvolvimento de jogos crescer e florescer lindamente, mesmo com a falta de incentivo.


Temos visto de anos para cá uma pedrada após a outra. Jogos do Brasil, Argentina, Venezuela, Chile, México vêm ganhando visibilidade e estão cada vez mais inseridos na indústria, espalhando nossas visões, nossas percepções, nosso jeito de enxergar o mundo, de fazer arte. E esse movimento só tende a crescer.


Viva a América Latina!!


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