[REVIEW] Vale a pena logar para RESIDENT EVIL REQUIEM? - Sem Spoilers
- Guilherme Fernandes
- 3 de mar.
- 6 min de leitura
Atualizado: 4 de mar.

Em 2026, a franquia de armas biológicas mais popular dos videogames completa 30 anos. São três décadas atravessando gerações, moldando tendências e influenciando diretamente a indústria. Hoje, Resident Evil ou Biohazard, como é conhecida no Japão, se consolidou como uma verdadeira potência multimídia, muito em função da dimensão que alcançou ao longo do tempo.
Ao redor dos jogos surgiram filmes live-action, animações em CGI, revistas em quadrinhos, novelizações, séries de TV e até peças teatrais no Japão. É um universo que se expandiu para além dos videogames e parece não dar sinais de desacelerar.
Ainda assim, o núcleo da franquia continua sendo os jogos. É ali que sua identidade se constrói e se renova. Como toda série longeva, Resident Evil passou por altos e baixos, experimentou mudanças controversas e enfrentou momentos de desgaste criativo. Porém, nos últimos anos, vive uma nova era de ouro, sustentada por uma sequência consistente de lançamentos sólidos, sejam eles remakes cuidadosos ou títulos inéditos que conseguem equilibrar tradição e reinvenção.
E fico feliz em dizer que, em 2026, para comemorar o aniversário de 30 anos da franquia, Resident Evil Requiem é mais um grande acerto.
Réquiem para os mortos. Pesadelo para os vivos.

Após cinco anos desde o lançamento de Resident Evil Village, Resident Evil Requiem surge envolto em mistério e expectativas. O novo capítulo traz de volta Leon S. Kennedy ao posto de protagonista pela primeira vez desde Resident Evil 6, ao mesmo tempo em que introduz uma nova figura central na trama: Grace Ashcroft.
A trama coloca você no controle de Grace Ashcroft, filha de Alyssa Ashcroft (sobrevivente do incidente biológico em Raccoon City e personagem jogável em Resident Evil Outbreak) agora atuando como agente do FBI. Ela é enviada para investigar uma morte cercada de mistério em um lugar que carrega um peso pessoal, e basta cruzar aquela porta para tudo sair do controle. Do jeito clássico que a série gosta com silêncio, tensão e, de repente, o caos.

Mas Requiem não gira apenas em torno dela.
Leon S. Kennedy também está presente, envolvido em uma missão paralela que o jogo revela aos poucos, sem pressa. Quando as trajetórias dos dois finalmente se cruzam, a narrativa ganha uma dinâmica interessante sendo um vai e volta constante de perspectivas, tensão e informação. É um equilíbrio delicado, facilmente poderia pender demais para o carisma já consolidado de Leon ou reduzir Grace a coadjuvante da própria história.

Não é o que acontece.
O roteiro dá espaço para os dois respirarem. Grace não é engolida pelo legado de Leon, e Leon não soa como mera “participação especial”. Cada um carrega seu peso, sua função e sua presença. E surpreendentemente, essa dualidade funciona melhor do que muita gente imaginava.
Dinâmica dos personagens
A forma mais direta de definir Resident Evil Requiem talvez seja dizer que ele combina os melhores elementos de Resident Evil 2 Remake e Resident Evil 4 Remake.
O lado mais contido, investigativo e claustrofóbico que remete a RE2 parece principalmente na jornada de Grace, com foco maior em exploração, tensão e vulnerabilidade. Já quando Leon entra em cena, a energia muda, o ritmo acelera, o combate ganha protagonismo e a experiência se aproxima da intensidade e do dinamismo que marcaram RE4.

Não é uma divisão rígida, mas a sensação é clara de que Grace carrega o espírito do survival horror clássico, enquanto Leon traz o peso da ação estilizada que redefiniu a franquia nos anos 2000.

A possibilidade de alternar livremente entre câmera em primeira e terceira pessoa valoriza ainda mais esse trabalho. Cada perspectiva altera a forma como o jogador percebe o espaço: a primeira pessoa aproxima e sufoca, intensificando o terror; a terceira amplia o campo de visão e destaca a construção dos ambientes e animações. O mais importante é que essa alternância não compromete a qualidade pelo contrário, enriquece a experiência e torna tudo mais dinâmico e imersivo.
Narrativa: Agridoce, o que não é novidade.
Resident Evil Requiem conta com início, meio e fim na sua campanha e isso pode agradar alguns e desagradar quem espera conclusões para grandes arcos da franquia. Antes de me aprofundar, quero compartilhar que, semanas antes do lançamento, eu assisti a todas as animações em CGI com meus amigos, e nos divertimos muito, por mais que a maioria deles seja bem fraca quanto à sua narrativa, que gira em torno basicamente de uma pessoa rica ou governo que detém controle de uma arma biológica e quer espalhar medo no mundo, praticamente todas as animações têm esse mesmo modus operandi. E onde quero chegar com isso?
O nono jogo principal da franquia, quanto à sua narrativa, infelizmente acaba esbarrando nos maneirismos presentes nas animações, na medida em que existem aspectos da trama que poderiam ter sido mais desenvolvidos, alguns personagens acabam ficando aquém do que prometem. Há participações que surgem com potencial, seja pela construção inicial, pelo carisma ou pelo mistério ao redor, mas que não recebem o desenvolvimento necessário ao longo da campanha. Fica marcado apenas pelo fã-service.

Isso cria uma sensação de oportunidade desperdiçada. O jogo sugere camadas, conflitos e relevância, mas nem sempre entrega evolução proporcional. Para quem cria expectativa em torno dessas figuras, o resultado pode ser frustrante, não porque elas sejam ruins, mas porque parecem subaproveitadas dentro de uma narrativa que tinha espaço para aprofundá-las mais.
Uma crítica que eu tenho aos últimos dois jogos da franquia principal, RE7, RE Village, é que eles começam muito bem, seja em questão de level design e narrativa, mas depois vão descarrilhando conforme o jogo avança. E aqui em Requiem infelizmente não é diferente, não sei se é covardia ou simplesmente não querem, mas não há amadurecimento quanto a algumas ideias aqui.

Ainda assim, mesmo com alguns tropeços, o enredo se mantém como um dos acertos do jogo. Requiem faz jus ao próprio nome, pois há um tom de despedida.
Muito disso ganha força graças à dublagem brasileira. O trabalho do elenco é impressionante, há emoção onde precisa haver emoção, naturalidade nos diálogos e personalidade nas interpretações. Não soa artificial, não soa forçado, soa vivo.
Por fim, a narrativa toca diretamente na lore central da franquia e faz isso de uma maneira que inevitavelmente divide opiniões. Ao mexer em pilares do universo canônico, o jogo questiona eventos já estabelecidos, ressignifica personagens e amplia certos conflitos que muitos fãs puritanos tratavam como intocáveis.
Visuais e desempenho
A parte visual é, sem exagero, um espetáculo à parte. Utilizando a RE Engine, a Capcom eleva o padrão que já era alto, superando inclusive o nível técnico visto no remake de Resident Evil 4, que até então era o lançamento mais recente da franquia.
Os detalhes impressionam constantemente cenários densos e cheios de pequenas histórias visuais, texturas muito bem trabalhadas, modelos de personagens extremamente refinados e expressões faciais que realmente transmitem emoção. O sistema de iluminação merece destaque especial, ele não está ali apenas para embelezar, mas para construir tensão, profundidade e atmosfera. A luz e a sombra trabalham juntas para tornar cada ambiente mais opressivo e inquietante.

O resultado é uma experiência visual de altíssimo nível, sombria e imersiva do início ao fim.
Joguei Resident Evil Requiem na versão slim do PlayStation 5, e o desempenho foi excelente. Não enfrentei problemas técnicos relevantes, o jogo rodou de forma fluida, estável e demonstrou um ótimo nível de otimização no console, reforçando o cuidado técnico da Capcom nesta nova entrega da franquia Resident Evil.
Os inimigos também demonstram um cuidado técnico evidente. O sistema de dano e desmembramento é particularmente impressionante não apenas pelo impacto visual, mas pela forma como reforça o peso e a brutalidade do combate. Cada tiro parece ter consequência física real, o que intensifica tanto a tensão quanto a sensação de vulnerabilidade.
Cenários
Outro ponto positivo é a variedade de cenários. Mesmo com mudanças de ambientação, o jogo mantém um nível consistente de qualidade, direção de arte e acabamento técnico, sem quedas perceptíveis ao longo da campanha.
Sem dar spoilers, posso dizer que, para mim, é o melhor conjunto de cenários dos jogos mais recentes, muito se deve ao level design que dos últimos numerados é o melhor até aqui. Certas partes são muito inspiradas em The Last Of Us, e outras partes no que a própria franquia já fez, fazendo uma homenagem louvável a cenários familiares.
Vale a pena logar para RESIDENT EVIL REQUIEM?
Com toda certeza.
Finalizei Resident Evil Requiem em cerca de 8 horas e, para mim, ele se consolida como mais uma excelente sequência dentro dessa saga lendária. A experiência entrega qualidades inegáveis como, gráficos impressionantes, jogabilidade fluida e prazerosa, um trabalho de áudio extremamente competente e uma trilha sonora que se encaixa perfeitamente em cada momento, seja para intensificar a tensão ou para deixar o silêncio falar mais alto.

Ainda assim, não saí totalmente satisfeito com tudo. A trama, apesar de ter momentos fortes, em alguns pontos me deixou com a sensação de que certos elementos poderiam ter sido mais desenvolvidos. Algumas ideias pareciam grandes demais para receberem apenas um aprofundamento parcial, o que me fez sentir que a narrativa poderia ter ido ainda mais longe.

Mesmo após três décadas, Resident Evil segue demonstrando força e relevância, mantendo viva a rara capacidade de se reinventar sem abrir mão da própria identidade. Ao longo dos anos, a série mudou de ritmo, de perspectiva e até de tom, mas nunca deixou de reconhecer suas raízes.




















Belo texto amigo Gui.
Eu que não sou fã da franquia, tenho adorado tudo que vejo de RE9.
Grande acerto da dona Capcom