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Spiritfarer: Um Epitáfio sobre o Adeus

10/11/2025 por Marko Barbosa



O cotidiano é uma mistura entre ilusão e sobrevivência. Acordamos pela manhã já pensando nos desafios que podem nos tirar da zona de conforto. Enfrentamos o deslocamento para o trabalho com um costume que beira o masoquismo. Respondemos que estamos bem para pessoas que fingem se importar com a nossa resposta, com uma naturalidade completamente oposta à realidade.


Mentimos para nós mesmos e para a sociedade para evitar conflitos. Disfarçamos nossos reais sentimentos e vontades em busca daquilo que nos deixa confortáveis.


“Por que eu deveria sair da minha zona de conforto se posso continuar evitando o inevitável?”

“O eu do presente não tem responsabilidades com o meu eu do futuro...”


Mas, entre as muitas certezas da vida, algumas podem ser ignoradas. E, se o acaso permitir, poucas ou nenhuma consequência desses atos serão colhidas, afinal:

Nem todo mundo que deixou de se alimentar direito terá problemas de saúde.

Nem todo mundo que deixou de investir dinheiro terá um futuro miserável.

Nem todo mundo que escondeu seus sentimentos será uma pessoa infeliz.


São essas pequenas mentiras às quais gostamos de nos apegar. Não chegamos a realmente acreditar nelas, mas torcemos para que possam se tornar verdades. Queremos que o improvável aconteça. Afinal de contas, um dia 1 + 1 tem que resultar em 3, certo? Certo?


Mas há momentos em que a verdade é inevitável. Não temos como ir contra a única certeza da vida.


Você pode evitar, mas ela não vai evitar você. Direta ou indiretamente, ela ronda a nossa rotina e a daqueles que amamos.

E não adianta achar que está preparado. Quando menos se espera, a oportunidade de se despedir adequadamente daquela pessoa querida escapa pelos dedos. E você vai sentir falta daquele último abraço que poderia ter feito toda a diferença.


Esse último abraço pode ser simplesmente um “boa viagem, aproveite as férias”, ou então um “foi bom trabalhar com você, boa sorte no próximo emprego”. Ou, no pior dos casos: “você foi uma pessoa incrível, bom descanso, te vejo do outro lado”.


O quão preparados estamos para falar sobre o último adeus?


Nada melhor do que um jogo indie para lidar com temas delicados. E já que o assunto pode ser um tabu para muitos, vamos tratá-lo da forma que mais nos sentimos confortáveis: jogando videogame.


Hoje, com muito carinho, tenho o prazer de escrever sobre Spiritfarer e compartilhar a experiência que só um jogo indie pode proporcionar.


Capa do jogo Spiritfarer

Como definir Spiritfarer?


Ou melhor, como definir “A Barqueira dos Espíritos”? É um jogo de plataforma? De aventura? Um metroidvania? Um jogo de gerenciamento? Ele é tudo isso. Mas, no final das contas, Spiritfarer é daqueles “indie conforto”. Só que é um indie conforto que fala sobre um tabu: ele não tem medo de falar sobre a morte.


Desenvolvido e publicado pela Thunder Lotus Games, a mesma responsável por 33 Immortals, Spiritfarer foi lançado em 2020 para praticamente todas as plataformas. Na data da publicação deste texto, encontra-se disponível no Game Pass Essential e no Netflix Games. Ou seja, é um jogo tanto para relaxar no sofá quanto para chorar escondido no banheiro.


Captura do jogo Spiritfarer com Stella e Daffodil

História


Você assume o papel de Stella, uma humana acompanhada de sua gatinha Daffodil. Stella chega ao mundo dos mortos de forma misteriosa e, sem muita explicação, assume o papel de Caronte, a barqueira das almas. Sua missão? Navegar pelos mares para encontrar espíritos perdidos e ajudá-los a “seguir em frente” pela Porta Eterna.


Mas aqui está o diferencial: Stella não é simplesmente uma caçadora de almas. Ela é gentil, empática, e quer que cada espírito tenha uma passagem feliz. Para isso, cria laços de amizade e ajuda a realizar seus últimos desejos. Cada despedida é marcada por um abraço apertado, simbolizando respeito e a amizade criada durante todo o processo.


Captura do jogo Spiritfarer com gerenciamento do barco

Gameplay


Como nova barqueira dos mortos, você começa o jogo com um barco minúsculo e precisa expandi-lo. Afinal, encontrará muitas almas pelo caminho. E, como em um bom sandbox, você construirá estruturas e acomodações personalizadas para cada uma dessas almas.


À medida que o jogo evolui, você irá desbloquear novas áreas para explorar, além de acessórios e utilitários para o barco, trazendo um toque de metroidvania à jogabilidade.


Enquanto navega e explora esse mundo vasto, você deve plantar, pescar, cozinhar, fabricar itens... Tudo isso para cuidar das almas e aprimorar o barco. Tarefas que parecem cansativas, mas que se tornam ainda mais agradáveis no modo cooperativo para dois jogadores offline.


Mas no fim, você pode se perguntar:

"Por que expandir o barco? Qual o real motivo de tanto micro gerenciamento? Não era um jogo sobre o adeus?"


O barco de Caronte funciona como uma cidade. Ele começa com apenas o timão, uma cabine de comando e uma vara de pescar, mas pode, e deve, ter muitas outras estruturas. Para proporcionar o melhor conforto possível para os espíritos, você vai construir estruturas de acordo com as necessidades apresentadas por eles.


Você irá construir dormitórios para que os espíritos possam descansar.

Você irá construir refeitórios para que os espíritos possam se alimentar.

Você irá construir jardins, cozinhas, marcenaria, curral, entre outras estruturas para que os espíritos possam ter atividades.


Apesar de parecer estranho ou cansativo, essas atividades são relaxantes e recompensadoras, graças à trilha sonora e aos gráficos únicos do jogo.


Você se sentirá criativo ao empilhar estruturas de forma bizarra. Desafiado ao criar metais para aprimorar o barco. Motivado a explorar cada canto do mapa em busca de novas almas e suprimentos.


Você sempre vai querer mais, e vai se sentir bem, fazendo o bem.


Captura do jogo Spiritfarer com abraço

O Adeus


Por mais que haja exploração e gerenciamento, Spiritfarer não é só sobre isso. É um jogo que não apenas precisa ser jogado, mas também sentido.


As almas que você encontra não querem acreditar que morreram. Elas relutam, presas a problemas e objetivos inacabados do passado.


E é por isso que você demonstra tanto respeito e carinho por elas. Afinal, para que uma alma precisa de um dormitório? Para que uma alma quer comida? Para que uma alma quer atividades?


Elas precisam de tudo isso para que esse momento de passagem seja o mais tranquilo e respeitoso possível, para que a aceitação venha de forma natural.


No fim das contas, não é um jogo só sobre o adeus.

É um jogo sobre aceitação.


Todos os espíritos do jogo são apresentados em forma de animais, cada personagem tem a sua personalidade ligada a esse animal e cada uma delas tem sua própria história, sua propria lore com um background único.

E não são histórias tristes aleatórias criadas pelos desenvolvedores para te fazer chorar, cada personagem conta uma história verídica de algum desenvolvedor do jogo ou de algum estudo de campo que foi realizado.


A equipe queria criar um jogo que tratasse da morte de uma forma mais pessoal e íntima possível, fazendo referência à perda de familiares e entes queridos.

O problema disso? É que eles conseguiram criar esse afeto do jogador com os personagens.


Você passa o jogo todo se importando com cada um deles, sabendo de suas preferências, de suas caracteristicas, satisfazendo as suas necessidades, dando presentes para eles, entendendo a história de vida e fazendo de tudo para que eles possam realizar o último desejo de vida deles...


Para no fim, após uma longa, profunda e íntima conversa sob uma jangada em um lago tranquilo como um último suspiro solene, ter que dar o adeus a essa alma, a essa pessoa, e enfim dar um último abraço, um abraço profundo, um abraço carinhoso como se fosse uma absolvição por todos os pecados dela, dizendo, “Está tudo bem, você está livre para ir”...


Mas na verdade é só um abraço de até logo e obrigado por tudo. Você foi uma pessoa incrível com defeitos e qualidades como todos nós.


E aí vem a revelação: quando você acha que o jogo é sobre os outros, descobre que é sobre você.


E tudo faz sentido...


Captura do jogo Spiritfarer com amigos no barco

Conclusão


Spiritfarer é um jogo com visual e trilha sonora únicos, que trata de aceitação, empatia e o valor das relações humanas.


Foi um dos melhores jogos de 2020, com nota 84 no Metacritic, perdendo curiosamente para Hades como melhor indie do ano.


Se você busca um jogo que vai além do entretenimento, que toca o coração e faz refletir, Spiritfarer é obrigatório.


Provavelmente você não sairá preparado dele, ninguém nunca estará. Mas com certeza sairá sabendo que:

Devia ter complicado menos Trabalhado menos Ter visto o sol se pôr. Devia ter me importado menos Com problemas pequenos Ter morrido de amor. Queria ter aceitado A vida como ela é A cada um cabe alegrias E a tristeza que vier.

2 comentários


Erick Fagundes
Erick Fagundes
11 de nov.
Casa do marko qdo ele terminou de escrever, o homi tava on fire

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Juliana Bolzan
Juliana Bolzan
10 de nov.

Com certeza irei jogar! Texto maravilhoso

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