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Vale a pena logar para a franquia Citizen Sleeper?

04/11/2025 por Juliana Bolzan



Recentemente, um designer de Starfield disse que o espaço é inerentemente entediante. Independentemente de qual tenha sido a intenção desse argumento, vi nas redes sociais posts com inúmeros exemplos tentando refutá-lo. Mas foram casos óbvios de obras aclamadas, como Star Trek e Mass Effect. O primeiro jogo espacial que me veio à cabeça foi outro. Uma franquia, na verdade. Um RPG apenas com textos, poucas imagens estáticas e rolamento de dados. Chato? Não, Citizen Sleeper é incrível!


Capa do jogo Citizen Sleeper

Gareth Damian Martin, único integrante do estúdio Jump Over The Age, desenvolveu os dois jogos da saga que foram publicados pela Fellow Traveller Games em 2022 e 2025, respectivamente. Nosso papel é o de um sleeper, um robô infusionado com a mente de uma pessoa real. Tal excentricidade é conduzida por uma corporação que escraviza os androides. Nossos protagonistas nos levam pelo espaço pois conseguiram escapar de seus algozes. No melhor estilo Black Mirror, as  lembranças dessa vida digitalizada num corpo de pele de vinil são confusas na nossa cabeça. O sleeper não tem gênero, se sente ao mesmo tempo vazio e múltiplo, mas sempre deslocado. Os olhares para ele são tortos, seja pela existência fugitiva, seja pela mera existência. Tal situação é um espelho da experiência particular de Gareth, uma pessoa não-binária.


Além dessa abordagem, que com certeza passará batida por muitos, Citizen Sleeper traz potentes críticas e reflexões sobre sociedade: o papel das corporações em nossas subsistências, as consequências de governos autoritários, a organização em grupos (rebeldes) auto suficientes, a ética no uso de tecnologias, a segregação racial, econômica e geográfica entre seres humanos. Aliás, o que nos faz humanos? Diversas vezes eu como sleeper me senti mais humana do que alguns personagens apresentados. E olhe que em Citizen Sleeper não há alienígenas, apenas homo sapiens. O designer de Starfield também lamentou pelo seu jogo ter inimigos apenas da nossa própria raça. Bem sabemos nós aqui da Terra que não precisa mais do que isso para uma grande aventura apocalíptica da Sessão da Tarde, mas Citizen Sleeper surpreende e impecavelmente nos apresenta três adversários: humanos, estatística e tempo.


Tela do jogo Citizen Sleeper com dados

Os personagens que encontramos em nossa jornada nos envolvem em missões que devem ser executadas quase sempre em um prazo determinado, o que o jogo chama de ciclos. E seu sucesso depende da sorte obtida nos cinco dados disponíveis em cada passar do tempo. É preciso se adaptar às  probabilidades usando as habilidades disponíveis para o sleeper, que você consegue melhorar ao ganhar experiência. Tive dificuldades com o primeiro jogo, e só consegui captar o espírito depois de inviabilizar meu save. Não há como salvar manualmente, e me meti numa situação sem retorno, tendo que recomeçar tudo. O aprendizado não é simples, mas vale a pena. O segundo jogo ameniza esse aspecto ao oferecer níveis de dificuldade que você pode alterar no meio de uma catástrofe para não empacar como aconteceu comigo. As missões também são apresentadas em novo formato bem mais engajador. Apesar de ainda ter soltado muitos palavrões para os dados, a jogabilidade ficou mais divertida. Minha única reclamação é pela falta de informação do que acontece quando há uma falha na rolagem. No primeiro jogo havia a possibilidade de desbloquear isso, mas no segundo não. Você vai na fé, na coragem ou no desespero mesmo.


A escrita de Citizen Sleeper é excepcional. Infelizmente, não há tradução para o português. Há pouco tempo disponibilizaram alguns idiomas adicionais ao inglês, mas o nosso não foi contemplado. É realmente uma pena, pois se torna um obstáculo para um jogo baseado em muito texto. E a redação é quase poética. A sensação de vazio reveza com encantamento. A trilha sonora se encaixa perfeitamente nessas transformações. É impactante o efeito de estar num momento tenso, com uma música angustiante e, ao apertar o botão, antes mesmo de ler a nova tela, uma esperança já enche seu coração pela mudança da melodia.


Tela do jogo Citizen Sleeper com texto

O segundo jogo é intitulado Starward Vector. E nada mais propício do que um vetor para representar Citizen Sleeper. O módulo é o quão longe você quer ir. A direção são as estrelas, a forma de alcançá-las fica a seu critério. Mas o sentido é sempre o do tempo. A flecha irreversível. Até o fluxo de uma cachoeira pode ser revertido por um dragão, mas o tempo não volta nunca. Essa característica singular com profundas consequências na Física é um pulsante alarme nos dois jogos. E há diferentes finais a depender de como você constrói o seu vetor. Starward Vector pode ser jogado independentemente do primeiro jogo, mas minha recomendação é de não fazê-lo. Há personagens recorrentes e questões que avançam e se complementam de um para outro.


Gareth disse que a franquia se encerra aqui. Essa informação, junto com as questões filosóficas e o tema específico do último jogo, me fizeram lembrar de NieR Replicant e de NieR Automata. Haveria espaço (ops! 😂) para mais histórias e tramas, mas nem todo ciclo precisa ser eterno. Às vezes o que nos resta é fechar um bom livro e doá-lo para que sua mensagem se propague. Há pessoas que apenas passam por nossas vidas, mas a mudam completamente. Há acontecimentos que nos marcam a ponto de renascermos. Apagar tudo e fazer diferente. Para uma máquina, formatação. Para um ser humano, florescimento.


Foto do jogo Citizen Sleeper com habilidades

A saga Citizen Sleeper está disponível em todas as plataformas. O primeiro jogo faz parte do catálogo da PS Plus e toda a série está no Game Pass. É possível comprar os dois jogos com desconto na versão Helion Collection. Citizen Sleeper é prova de que o espaço é interessante, bastando povoá-lo com mecânicas envolventes e contexto instigante. É um jogo para ser lido; é um livro recheado de lindas imagens; é uma imaginação da nossa vivência como civilização e como seres humanos.

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