top of page

[REVIEW] Vale a pena logar para 007 FIRST LIGHT?

007 first light

As cinco últimas gerações de videogames foram marcadas por uma busca cada vez maior por experiências cinematográficas. Narrativas elaboradas, cenas de ação espetaculares, momentos de tensão cuidadosamente construídos e sequências que desafiam a lógica passaram a ocupar um papel central em muitas das maiores produções da indústria.


007 First Light talvez represente mais um ponto dessa evolução. É o resultado de décadas de aprendizado sobre como unir cinema e videogame em uma única experiência. Uma jornada que muitos apontam ter ganhado força com Metal Gear Solid, lançado em 1998, título que ajudou a popularizar o conceito de jogo cinematográfico ao combinar narrativa envolvente, direção de câmera elaborada e cenas que pareciam saídas de um filme.


Desde então, franquias como Uncharted, The Last of Us e God of War continuaram a expandir essa concepção, e 007 First Light traz tudo de melhor dessa ideia. O jogo não apenas faz você controlar James Bond, ele faz você se sentir dentro de um filme de espionagem, com perseguições eletrizantes, explosões grandiosas, reviravoltas constantes e momentos que capturam toda a essência do agente secreto mais famoso do mundo.


O Espião Que Me Amava

Antes de falar sobre o jogo, quero rapidamente contextualizar minha relação com James Bond. Eu não assisti a todos os filmes nem joguei todas as adaptações da franquia, mas sempre tive um carinho enorme por esse universo. A mistura de espionagem, ação, tecnologia e elegância sempre fez de 007 uma série muito única.


007 first light

Mesmo sendo uma história de origem, mostrando um James Bond ainda inexperiente e longe de se tornar o lendário agente 007, Patrick Gibson entrega uma interpretação impecável do personagem. Os trejeitos, a postura, o jeito de falar, o humor sarcástico e até a arrogância característica estão todos ali. É um Bond diferente do que estamos acostumados, mas que nunca deixa de parecer James Bond.


Ao mesmo tempo em que o jogo busca um tom mais realista, ele também abraça sem qualquer vergonha o lado mais exagerado da franquia. Tem caneta explosiva, relógio com laser, câmera que dispara ondas de choque, jetpack e toda aquela coleção de bugigangas absurdas que sempre fizeram parte do universo do agente secreto.


007 first light

Viva e Deixe Morrer

A história também me surpreendeu bastante. Muito bem escrita, ela acompanha o evento que leva James Bond a ser recrutado e treinado pelo MI6, enquanto ele embarca em uma caçada ao ex-agente 009 e enfrenta uma sequência de organizações e vilões até finalmente conquistar o direito de usar o código 007. O roteiro consegue desenvolver muito bem seus personagens secundários. Greenway, Moneypenny, Isola e até parceiros que aparecem apenas no começo da campanha têm personalidade, boas interações e ajudam a tornar a jornada muito mais envolvente.


007 first light

Nem tudo, porém, mantém o mesmo nível de qualidade. Minha principal crítica fica para o último ato da campanha. O começo é excelente, o desenvolvimento consegue manter um ritmo muito consistente e a história cresce de forma natural, mas a reta final acaba perdendo um pouco dessa força.


Sem entrar em spoilers, algumas decisões narrativas parecem alongadas mais do que o necessário e certos acontecimentos não têm o impacto que deveriam ter. A impressão é de que o jogo tenta aumentar a escala dos eventos, sacrificando parte da construção que vinha sendo feita até então. Não chega a estragar a experiência, longe disso, mas é um desfecho que não faz jus ao brilhante início e ao ótimo desenvolvimento da campanha.


Estruturalmente, 007 First Light funciona quase como um filme de espionagem, mas não naquele sentido extremamente scriptado que muitos jogos modernos adotam. Em vez de apenas colocar o jogador para assistir a grandes cenas, ele faz você participar delas. A direção das cutscenes, o ritmo da narrativa e até mesmo o tutorial ajudam nessa sensação.


Logo no início, por exemplo, o SSD do console é usado para alternar instantaneamente entre diferentes cenários durante o treinamento, criando uma montagem digna de cinema. O capítulo 8, em especial, parece um longa clássico de James Bond, com introdução, desenvolvimento e um clímax espetacular.


A Serviço Secreto de Sua Majestade

A verdadeira estrela do jogo é a gameplay. A IO Interactive conseguiu criar uma mistura que parece improvável no papel, mas funciona incrivelmente bem. Há elementos de Hitman, Splinter Cell, Uncharted e até Watch Dogs, embora as sequências mais explosivas no estilo Uncharted sejam relativamente raras. Na maior parte do tempo, o jogo incentiva o jogador a agir como um verdadeiro agente secreto, permitindo concluir praticamente todas as situações utilizando furtividade.


007 first light

E o melhor é que essa liberdade não é apenas uma ilusão. Os cenários são extremamente interativos e oferecem inúmeras possibilidades para abordar cada objetivo. É possível hackear equipamentos, manipular sistemas de segurança, criar distrações e utilizar os próprios elementos do ambiente tanto para facilitar a infiltração quanto para ganhar vantagem durante um confronto.


O combate corpo a corpo também merece destaque. Misturando influências de Batman Arkham, Sleeping Dogs e Splinter Cell: Conviction, ele é extremamente brutal e criativo. Você pode arrastar inimigos inconscientes, utilizar praticamente qualquer objeto do cenário durante uma luta, bater a cabeça deles contra mesas, janelas ou extintores, arremessá-los de sacadas, cegá-los com o laser do relógio antes de executar um golpe e improvisar de inúmeras maneiras diferentes.


O sistema de tiro também é cheio de detalhes. Acertar a mão faz o inimigo largar a arma; atingir a perna o desequilibra; é possível chutar uma arma diretamente para as próprias mãos durante um combate ou até lançá-la contra um adversário quando a munição acaba.


007 first light

O sistema de stealth também foge das convenções do gênero. Diferentemente de muitos jogos, ser visto por um ou dois guardas não significa fracasso imediato. Se você conseguir resolver a situação antes que eles acionem reforços, a infiltração continua normalmente.


Além disso, Bond possui uma quantidade absurda de diálogos contextuais para improvisar quando é pego em situações comprometedoras. Se um guarda o encontra arrombando uma porta, por exemplo, ele inventa na hora que é um inspetor de portas realizando um teste de segurança. São pequenos momentos como esse que dão muito mais personalidade ao protagonista.


As possibilidades de distração também impressionam. Dá para provocar intoxicação alimentar em NPCs, ligar rádios e televisões, abrir mangueiras, incendiar lixeiras e manipular praticamente qualquer elemento do cenário para alterar a rotina dos inimigos. Embora não seja um enorme playground de assassinatos como Hitman, o jogo oferece uma liberdade surpreendente para improvisar.


As sequências de perseguição de carro e as partes de parkour também são bastante divertidas. Elas talvez não alcancem o mesmo nível de refinamento da furtividade e do combate, mas ajudam a variar constantemente o ritmo da campanha e reforçam ainda mais a sensação de estar vivendo um filme de espionagem.


O Amanhã Nunca Morre

E, para quem é fã da franquia, o jogo é praticamente uma carta de amor a James Bond. Estão presentes a clássica abertura pelo cano da arma, uma sequência musical espetacular e viciante interpretada por Lana Del Rey, as tradicionais Bond Girls, M distribuindo as missões, Moneypenny dando suporte durante a campanha, Q apresentando seus novos equipamentos e até as famosas cenas de tortura, incluindo uma delas extremamente criativa.


Vale a pena logar para 007 First Light ?

007 First Light entende perfeitamente o que faz James Bond ser James Bond. Ele respeita décadas de história da franquia, mistura referências de todas as suas fases e ainda consegue modernizar a fórmula sem perder sua identidade. O resultado é um dos jogos de ação e espionagem mais completos dos últimos anos e, sem dúvida, uma das melhores adaptações que o personagem já recebeu nos videogames.


Demorei para terminar o jogo e publicar esta review, mas a espera valeu a pena. Tenho um carinho enorme por Uncharted 2: Among Thieves (2009) e, ao chegar aos créditos de 007 First Light, senti exatamente o que Anton Ego sentiu em Ratatouille (2007).




Comentários


bottom of page