[REVIEW] Vale a pena logar para Esoteric Ebb?
- Juliana Bolzan
- há 2 horas
- 4 min de leitura
O VLH agradece a Raw Fury pelo recebimento da chave de Esoteric Ebb

Assim que terminei Disco Elysium, fiquei quase um mês sem conseguir jogar nada. Nunca nem tentei descrever o que senti com esse jogo, apenas recomendo-o como uma das experiências mais transcendentais que tive com videogame. E Disco deixou esse rastro devastador e permanente em muita gente, tanto que têm surgido jogos abertamente adjetivados de disco-like.
Esoteric Ebb, lançado em março de 2026, é um deles. Desenvolvido por Christoffer Bodegård e publicado pela Raw Fury, está disponível apenas para PC e em inglês. Cheguei a perguntar para a publicadora se havia intenção de localizá-lo em outros idiomas e a resposta foi negativa, pelo menos por enquanto. Eles adorariam considerar a tradução das mais de 750 mil palavras, mas dependeria do sucesso comercial do jogo. Isso acaba parecendo o enigma do que veio antes, o ovo ou a galinha, mas é o que temos no momento.

Ficar comparando Esoteric com Disco não seria nada justo, apenas direi que ele me pareceu mais político, enquanto Disco me tocou de forma existencial. As cores chamativas e o estilo da arte ajudam no tom cômico quase sempre empregado nos diálogos e embutido em situações que me fizeram genuinamente gargalhar. A lore é vasta e chega a ser cansativo acompanhá-la a fundo. No meio dos textos aparecem palavras destacadas em laranja que indicam um detalhamento e isso te leva a mais explicações que levam a mais explicações e a enciclopédia que fica disponível no menu se agiganta exponencialmente.
São muitos termos, agentes e acontecimentos daquele universo, mas eles são essenciais para entender a importância do grande evento que marca a cronologia do jogo: pela primeira vez na história, o povo da cidade de Norvik poderá escolher o partido que o governará.

Eleições! Democracia! Enquanto as leituras sobre religião e magia são complexas, a parte política é muito fácil de entender, pois é uma transposição da experiência real de todos nós. E desde o início esse tema é estabelecido como o principal do jogo. Nós somos um clérigo que é chamado para investigar uma explosão de uma casa de chá ocorrida há alguns dias do referendo popular. Há fortes indícios de uso de magia e suspeita de que tal ação tenha tido a intenção de interferir na eleição. Nada melhor então que um empregado estatal especialista em eventos esotéricos para apaziguar a situação.

O Clérigo terá à sua disposição as vozes da sua cabeça. Os habituais atributos de RPG como força, destreza, constituição, inteligência, sabedoria e carisma na verdade são aspectos da sua personalidade que ficam palpitando em tudo que você faz e fala. Eles aparecem de forma “passiva” dando conselhos triunfantes ou fracassados a depender do rolar oculto dos dados, ou de forma “ativa”, virando opções diretas de ação ou de respostas, com rolagem visual dos dados.
A sua build influenciará a forma como a investigação será conduzida e pode ser montada com a escolha de magias, vestimentas, artefatos, armas e qual das vozes da sua cabeça você reforçará e dará ouvidos.

Os combates são divertidos e engenhosos: apenas O Clérigo tem pontos de vida. Você não sabe o que está acontecendo quantitativamente com o inimigo ou com companheiros, apenas obtém uma descrição qualitativa no melhor estilo que um mestre de RPG poderia fazer. Há algumas poucas animações, e talvez justamente pela escassez, elas sejam marcantes. A trilha sonora conduz bem a aventura, destacando-se em momentos-chave.

As criaturas que você encontra ao longo da cidade, percorrendo-a de cima a baixo, são um ponto forte de Esoteric. Muitas vezes elas não têm nada a ver com a investigação da explosão, mas uma das coisas mais divertidas é perguntar em quem elas votarão. Afinal, a missão principal é na verdade participar da eleição. Essa obsessão me levou a uma das escolhas mais angustiantes que já fiz num jogo. Toda a situação política atual do mundo passou pela minha cabeça, rodopiou meus neurônios, trepidou meu coração e só teve um jeito de sair disso.
Ressalto também os personagens que acabam mais próximos dO Clérigo. Muito bem construídos, assim como toda a qualidade geral da escrita do jogo. Alguns são tão complexos que chegam a ser intangíveis. Outros são tão simples que me fizeram chorar com sua ingênua beleza.

Durante minha experiência, tive alguns problemas como apertar o botão para passar uma frase e ele passar duas, fazendo uma escolha que eu não queria. A descrição das missões não ajuda muito no que fazer e a tela é ruim de navegar com controle. O cenário algumas vezes dificultava a caminhada do personagem.

Considerando tudo isso, Esoteric Ebb é mais um excelente indie desse ano. É muito animador ver que, apesar do espetacular ano de 2025, eles estão vindo com tudo também em 2026. Que ele abra caminho para mais disco-likes que respeitem a obra original trazendo um estilo próprio. Se ler em inglês não é um empecilho para você, Esoteric Ebb é tão obrigatório quanto votar na próxima eleição.
