[REVIEW] Vale a pena logar para MORTAL SHELL 2?
Por Zé Paulo Castro

Mortal Shell 2 é um daqueles jogos que comprovam o que deveria ser óbvio. Com tempo, experiência e espaço para uma segunda chance, os desenvolvedores podem pegar uma boa ideia mal executada, reconstruir e transformar em um ótimo jogo.
Se o game original, desenvolvido pela Cold Symmetry e lançado em março de 2021, na primeira grande leva dos ditos soulslike, RPGs de ação influenciados pelos jogos da From Software, era de fato terrível, a continuação retrabalha toda a jogabilidade e, a partir daí, constrói um jogo de alta qualidade, com foco nos elementos mais característicos do gênero: level design integrado, que incentiva a exploração dos cenários, e combate desafiador.
Contexto e História
Mortal Shell 2 compartilha o universo do game original, mas funciona basicamente como uma sequência independente. Nele, entramos na pele de Arauto, um ser nascido do “ovum” de uma divindade cósmica denominada “Mãe” na lore do jogo e que detém a capacidade de “possuir” corpos de guerreiros mortos e usá-los como carcaças, capturando para si sua aparência e habilidades únicas.
A história segue uma linha bastante encriptada, característica dos jogos do gênero, e funciona como ponto de partida e pano de fundo para a implementação dos fundamentos e mecânicas essenciais do game. Não espere algo muito compreensível a olho nu. Fato é que somos colocados em uma região decadente, inóspita e repleta de criaturas prontas para nos fazer em pedacinhos.
Jogabilidade
Seguindo a fórmula desenvolvida e popularizada pela From Software, a jogabilidade de Mortal Shell 2 é lastreada em um combate cadenciado e posicional, com foco na construção de builds e explorando um level design bastante interessante.
O grande diferencial da franquia são as “Conchas” que encontramos durante a aventura e podem ser “vestidas” por nosso Arauto. Elas são 8 no total e funcionam como classes no jogo.
Durante minha jornada, acabei ficando muito mais tempo com uma delas: Tiel, o Acólito. Explorando seu foco em esquivas perfeitas e veneno. Bom demais! Também experimentei e gostei muito da Proxima, a Buscadora de Ninhadas, e Sariel, o Infinito. As conchas diferentes realmente alteram a forma de jogar e permitem abordagens bem distintas.

Em Mortal Shell 2, montar seu personagem, sua build, é um pouco diferente. Não distribuímos pontos em atributos a cada nível alcançado. Na verdade, o game tem uma progressão de level linear, onde ganhamos mais vida, dano e etc. As builds são feitas mesmo com a escolha da concha e das armas, em composição com os pontos distribuídos pelas árvores de habilidade e o conjunto de pedras de Tar equipados. As pedras e itens são bastante variados e dão bastante opção para criar seu guerreiro perfeito. Sangramento, veneno, fogo, gelo... tá tudo lá, mesmo que de um jeitinho não habitual.
Falando da estrutura do jogo, passamos a maior parte do tempo atravessando, explorando e combatendo inimigos em um mundo bastante aberto e interconectado, rico em detalhes e com biomas distintos. Aqui o game design brilha. Nessas áreas, os desenvolvedores claramente concentraram a maior parte do seu esforço e investimento, criando lindos cenários, repletos de itens e surpresas interessantes.

Em parcela menor, encontramos os “Portões”. Dungeons mais contidas, obrigatórias para a conclusão do jogo, que sempre terminam com uma luta de chefe. Esses “calabouços” são legais, mas com level design bem menos inspirado que na área mais aberta.
O combate do game é ótimo, exigindo atenção ao posicionamento, além de domínio de esquiva e parry. As armas são balanceadas e, mesmo não sendo muitas, contribuem para uma variedade interessante de estilos de jogo. Até agora não sei se gostei mais da Iconoclasta, do Machado e Adaga ou da Machatana.
Outro ponto que vale destaque é que temos duas “moedas” no game. As “souls”, usadas como XP principalmente para subir de nível e que exigem a tradicional corpse run para recuperá-las quando morremos. E o ouro, usado para comprar itens, evoluir armas e afins, que não perdemos ao cair em combate. Isso é bacana porque mantém um senso de progressão, mesmo quando rola aquela derrota inesperada para um inimigo “básico” numa esquina qualquer.
Lutas de chefe e inimigos base
Os chefes são os maiores problemas do game. Alguns até tem um design legal, mas são colocados em arenas nada memoráveis e, em sua grande maioria, possuem movesets bem básicos e desinteressantes.
Não tive muita dificuldade para derrotar os bosses e isso não é um problema para mim. Porém, se você é daqueles que encara os soulslike em busca de lutas de chefe grandiosas, com aquela sensação de viver uma batalha épica e desafiadora, pode se decepcionar aqui.
Em contrapartida, gostei bastante dos inimigos comuns. Não são muitos, mas são muito bem desenhados, têm comportamento interessante e são gostosos de enfrentar.

E a parte técnica/artística?
Mortal Shell 2 é um jogo muito bonito! A direção de arte tem um “quê” de horror cósmico, misturado com alguns elementos bem dark fantasy, produzindo uma composição visual bastante inspirada.
O design das conchas, cenários e inimigos são super detalhados e excelentes!
Joguei em um Xbox Series X e o jogo roda lisinho, cravado em 60 quadros, com poucos bugs e resolução alta.

O áudio design é competente em seus efeitos. O jogo usa muito bem o silêncio como elemento de atmosfera. Bem ao estilo Dark Souls. Adoro!
Já as músicas não se destacam. Não são ruins, nem incomodam a jogatina, mas nenhuma delas foi marcante.
Vale a pena logar para Mortal Shell 2?
Sem pestanejar: sim, vale a pena!
Mortal Shell 2 é um jogo muito sólido e polido, com uma atmosfera instigante e ótima jogabilidade. Minhas mais de 50 horas com ele foram uma delícia!
Até sinto que o jogo se estendeu um pouco mais que deveria, mas o momento a momento é tão bom, tão agradável com o controle nas mãos, que nunca fiquei entediado ou ansioso para ver os créditos.
Sem dúvidas, um dos melhores soulslike não From.
O game está disponível para Xbox Series, Playstation 5 e PC, possui legendas em português do Brasil e foi lançado com um ótimo preço base: 159 reais nas 3 plataformas.





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